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Tratamento Cirúrgico no Idoso

Introdução ao Caso

CASO 1
Paciente com 85 anos procurou cirurgião devido a hérnia inguinal que o incomodava muito durante as atividades diárias e, principalmente, para tocar instrumento musical de sopro, que era uma maneira de amenizar a tristeza depois da morte recente de sua esposa, com a qual conviveu mais de 50 anos. Paciente não usava medicamentos, seus dados vitais e exames complementares não apresentavam anormalidades. O cirurgião disse-lhe que não iria operá-lo, porque ele já estava velho, e que não poderia mais tocar o instrumento musical, pois isso piorava a hérnia. Não bastasse essa conduta, recomendou ao filho do paciente que vendesse ou doasse o instrumento. O paciente permaneceu por vários dias muito triste e consultou outro cirurgião. Foi realizada a herniorrafia sem a colocação de tela e não houve intercorrências durante o perioperatório. No terceiro mês de pós-operatório, o paciente foi liberado para realizar as atividades da sua rotina de vida, inclusive tocar o instrumento musical.

 

CASO 2
Paciente com 87 anos de idade apresentando anemia sem causa aparente. A colonoscopia e o exame anatomopatológico diagnosticaram adenocarcinoma ulcerado no ceco. Dois meses antes deste diagnóstico, o paciente havia sido acometido por infarto do miocárdio e foi submetido a colocação de três stents nas coronárias. Considerou-se que a doença atual necessitava de tratamento com urgência relativa, uma vez que havia perda sanguínea microscópica e não seria prudente esperar por mais quatro meses para realizar a cirurgia. Assim, a colectomia direita foi realizada sem intercorrências no transoperatório, sendo o paciente encaminhado ao CTI. Aproximadamente na 8ª hora de pós-operatório, foi diagnosticado infarto agudo do miocárdio e, nessa mesma noite, o paciente foi submetido a inserção de mais dois stents. Com boa evolução após os dois procedimentos, recebeu alta hospitalar no 8º dia de pós-operatório.

1) CASO 1: Assinale a afirmação incorreta:

A herniorrafia foi bem indicada.

O procedimento cirúrgico apresentava baixo risco.

O primeiro cirurgião estava em conformidade com o Código de Ética Médica, quando se recusou a realizar a herniorrafia.

Considerando a relação médico-paciente, o primeiro cirurgião agiu corretamente ao se manifestar sobre o motivo da recusa em realizar a herniorrafia.

2) CASO 2: Assinale a afirmativa incorreta:

A realização de operações de grande porte antes de 6 meses após infarto agudo do miocárdio eleva sobremaneira a probabilidade de novo infarto no perioperatório.

O tratamento cirúrgico deveria ter sido protelado até completar 6 meses após o infarto, diante do risco elevado de um novo infarto.

Pacientes nessas condições não devem ser submetidos a procedimentos cirúrgicos de grande porte em hospitais sem CTI e Serviço de Hemodinâmica.

A presença de comorbidades graves não é contraindicação absoluta para realizar operações de grande porte em idosos.

Uma ou mais questões não foram respondidas. Para dar continuidade responda todas as questões.

Discussão do Caso

Análise dos Casos:

Comentário – Caso 1:

Conforme consta no Código de Ética Médica, Cap. II, item IX: “o médico tem o direito de recusar-se a realizar atos médicos que, embora permitidos por lei, sejam contrários aos ditames de sua consciência”. A exceção consta no art. 33: “É vedado ao médico – deixar de atender paciente que procure seus cuidados profissionais em casos de urgência ou emergência quando não houver outro médico ou serviço médico em condições de fazê-lo”. Um dos principais papéis do médico é melhorar a qualidade de vida das pessoas, independentemente da idade. No caso em tela, o paciente não apresentava comorbidades e havia indicação para o procedimento cirúrgico, devido aos sintomas e comprometimento da sua qualidade de vida. Embora na relação médico-paciente a transparência seja necessária, é preciso ser cauteloso, pois isso não faculta ao médico manifestar ao idoso que a não realização do tratamento cirúrgico é devido à idade, porque pode ser um erro de avaliação e insensibilidade, além de não se observar o que versa o art. 23 do Código de Ética Médica: “É vedado ao médico tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto”. Observa-se, também, que a atitude do médico foi contrária aos ditames do Estatuto do Idoso (ver final desta Nota Técnica).

 

Comentário – Caso 2:

Mesmo que o idoso apresente comorbidades graves, o tratamento cirúrgico pode ser realizado com chance de bons resultados, desde que sejam observados todos os cuidados que a condição clínica de cada paciente exige. Foi fundamental que o procedimento tenha sido realizado em hospital com CTI e Centro de Hemodinâmica, ambos adequados para atender as intercorrências durante o perioperatório. Aguardar mais quatro meses para a realização da colectomia poderia aumentar a incidência de complicações de várias naturezas em um paciente idoso com câncer e perda contínua de sangue oculto nas fezes.